Historial

 

Textos de Olga Roriz

 

 

 

 

     

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Start and Stop Again
 

É um...
DESLIZAR o tempo sobre o tempo ...
DESCALÇAR os pés sobre um chão mole ...
PROCURAR um fim qualquer ...
DORMIR sobre os diamantes ...
SONHAR com as palavras sem sentido ...
ENCONTRAR um olhar distante com um ouvido atento...
DIZER o que se quer, para que fique dito para sempre...
SABER que ontem já passou e amanhã ainda está para vir...
REPOUSAR sobre a vida das flores e o voo nupcial...
DESCOBRIR que há dois tipos de pessoas, os narcisos e os gladíolos...
ACREDITAR nos buracos de vermes...
ANDAR para que a calma restabeleça a ordem dos sentidos...
TRAZER tudo o que até agora se guardou...
DEVOLVER as cores às noites sem fim...
CORRER com uma mão livre e um livro debaixo do braço...
APRENDER com as crianças que o tempo é subjectivo...
VER a história de cada um de nós esvair-se como se fosse uma ampulheta...
PROCURAR um fim qualquer...

E é também ...

NÃO DESLIZAR o tempo sobre o tempo...
NÃO DESCALÇAR os pés sobre um chão mole...
NÃO PROCURAR um fim qualquer...
NÃO DORMIR sobre os diamantes...
NÃO SONHAR com as palavras sem sentido...
NÃO ENCONTRAR um olhar distante com um ouvido atento ...
NÃO DIZER o que se quer, para que não fique dito para sempre...
NÃO SABER que ontem já passou e que amanhã ainda está para vir...
NÃO REPOUSAR sobre a vida das flores e o voo nupcial...
NÃO DESCOBRIR que há dois tipos de pessoas, os narcisos e os gladíolos...
NÃO ACREDITAR nos buracos de vermes...
NÃO ANDAR para que a calma restabeleça a ordem dos sentidos...
NÃO TRAZER tudo o que até agora se guardou...
NÃO CORRER com uma mão livre e um livro debaixo do braço...
NÃO APRENDER com as crianças que o tempo é subjectivo...
NÃO VER a história de cada um de nós esvair-se como se fosse uma ampulheta...
NÃO PROCURAR um fim qualquer...

CORTAR a meta...
CORRER o risco...
CHEIRAR a coca...
RASGAR a pele...
QUERER amar...
CRIAR o espaço...
VOLTAR a vê-lo
PEDIR de vida...
ESTENDER a mão...
FECHAR os olhos...
TROCAR as voltas...
DIZER que não...
ABRIR a porta...
FICAR sozinho...
SOLTAR o filho...
IR ao acaso...
MATAR o tempo...
LER-lhe nos olhos...
DEIXAR passar..
TER para dizer...
LEVAR consigo...
SABER guardar...
GOSTAR de rir...
PODER fugir...
ESQUECER o fim...
CONTAR a história...
PERDER o rumo...
OUVIR falar...
ACRESCENTAR...

9 de Junho 1997
Olga Roriz



Ao Tempo

Encontrei-o assim ao dobrar a esquina, a cama, a curva do rosto, a ruga.
Esbarrei com ele assim uma noite entre as seis e as sete ao olhar o rio. Corria e reflectia muito leve, muito fino.
E sentia, sentia-o. Sentou-se ao meu lado e adormeceu no meu colo e ali ficou a embalar a embala-lo, devagarinho sem expirar sem inspirar, só olhos, só espanto, só inquietação.
O que era aquilo que ali passava e me agarrava e me detinha e me fazia pensar, saber...
O que era aquilo do TEMPO plantado a olhar para mim a comer-me pela pele, pelos ouvidos, pela boca.
Cresceu, cresceu e com ele a vontade de não o poder deixar passar sem o devorar todo, sorver todo, mergulhar...

Parti, assim, com ele no fundo dos sapatos a galgar a cidade a vida. Empurrei as portas, bati nos ombros, chamei-os a todos pelos nomes para virem comigo ver o fundo do meu sapato.
E assim viajei horas, dias, meses, feita cinderela e príncipe perfeito à procura dos pés, dos passos que se cruzassem com os meus e fizessem dos sapatos chapéus e dos chapéus pulseiras e das pulseiras chaves e das chaves cintos e dos cintos anéis e dos anéis dedos e dos dedos mãos, caras, peitos, umbigos, sexos, corações e dos corações fígados e dos fígados diários, diários sem dias sem horas sem minutos, só vontade, vontade de comigo descobrir o que és...

4 de Setembro 1997
Olga Roriz



“Conselhos que o Tempo me deu”


Fazer-se do TEMPO o que se quer fazer
SER seu aliado
CÚMPLICE em tudo
SABER trazê-lo de perto
DIZER-LHE todos os segredos
NÃO SUSPEITAR que te persegue
Nunca CORRER atrás dele
DEIXÁ-LO empurrar-te
TRAZÊ-LO sempre nas palmas das mãos
Quando não se sente CERTEFICAR se se está morto
BRINCAR, brincar muito com ele
Nunca o CONTAR
PREGAR-LHE todas as partidas
Nunca o DAR a ninguém
QUERER manipulá-lo
Uma vez por semana DEIXAR o relógio em casa
Sete vezes por semana DEIXAR o relógio em casa
ACHAR o tempo que se viveu com mais valor do que o que se tem para viver
SABER que o tempo é pessoal e intransmissível
CRIAR cada instante
USÁ-LO como o único bem seguro
SABÊ-LO incansável, fiel, inesgotável
SUBSTITUIR a velhice pela sabedoria
ACEITAR que a sincronia perfeita entre o tempo e o homem está na morte
...e entre o tempo e a morte está no homem ...
e entre o homem e a morte está no tempo

Olga Roriz
6 de Setembro 1997
 
 


   

Anjos, Arcanjos, Serafins, Querubins,... e Potestades
 

A Terra que me foi Prometida

Porque não quero
e sei que não posso voltar...
Porque não espero rever
mas não quero esquecer,
procuro!
Procuro no prazer leve da distância,
os lugares,
as vozes, os gestos que há muito rasguei.

Como num cortejo de memórias,
desfilam em mim rostos,
recantos, hábitos, palavras,...
Traço esboços desfocados de santos e bruxas,
de anjos e demónios,
noivas solitárias e galos degolados,
cânticos surdos e uivos desgarrados,
viajantes errantes e virgens revoltas,
terras descrentes e caminhos arrastados,
risos e repousos,
trabalhos e mortes.

Colados ao corpo
tenho esses momentos parados no tempo,
como imagens num altar.
Suspensos...

Trago comigo estilhaços,
sons perdidos,
passeios vagos...
que em cada rua,
em cada canto, deixei.

E, mesmo que o meu olhar se desvie,
já não cabe nesse céu,
nem nesse mar,
nem o cheiro já se lembra de cheirar,
ou o tacto de tocar!

Porque não posso voltar de novo
e porque não espero que o povo volte ao povo,
procuro!
Procuro aqui e ali um qualquer lugar,
um sítio onde me possa firmar.

Irei assim,
esquinando calçadas de pedra,
descalça, incauta, quase impura,
galopando em aldeias vazias,
em livros por abrir,
em catedrais de pedra,
terras por lavrar,
caixinhas do saber,
meninos que se deitam a perder,
lobos, porcos, galos e perus por matar...

Lembro o que não sei
e esqueço o que não fui.
Como um pecado...

Olga Roriz
25 de Fevereiro de 1998
(revisto a 11 de Agosto de 2004)
 
 


   

Propriedade Pública
 

“Viagem Imóvel”

Recusar o senso comum. Deixar-se ir.
Esquecer as referências e abandonar-se ao não sentido.
Encontrar.
Procurar no que não se sabe.
Desamarrar-se do óbvio. Recusar.
Aproximar-se do que não é, num aparente e absurdo nada. O vazio.
Desarrumar as memórias.
Desamarrar-se outra vez.
Deixar-se ser. Somente ser. Sem afirmação. Sem reconhecimento.
Não querer nada.
Suicidar a existência. Mutilar-se.
Deixar-se estar, com tudo à mão, mas inacessível.
Renunciar.
Destrui o desejo, mas porém ficar. À vontade. Sem vontade.
Indiferente.

Estar para ali numa viagem imóvel. Imóvel.
Não sair nem entrar. Mudar de lugar. O lugar.
O lugar das coisas.
Sem sentido algum, porém o único. O possível.
Escolhido ao acaso. Inexistente.
Ocupar um lugar porque o corpo existe.
O lugar do corpo.
Acumular os destroços duma “máquina pensante”.
O não por terra: à porta de casa, à esquina da rua, ao fundo do
Túnel, à sombra da árvore, ao calor, ao frio, ao medo.
O não marcado nos nós dos dedos, nos calos dos pés,
Nos cantos da boca, ao fundo dos olhos.
O não dito na lógica do vazio, nas palavras que se gritam
Ou se calam.
O não onde só existe um lugar comum. O frenesim da solidão.

Olga Roriz
(texto escrito para o programa do espectáculo “Propriedade Pública” em Agosto de 1998)


Sinopse dum comportamento comum a todos os personagens


Eu já não digo nada, há muito que me calei, já não olho,
Já não vejo nada.
Tudo me sabe a nada, mastigo e engulo.
Engulo tudo, as notícias dos jornais, as conversas alheias,
As vossas caras.
O meu lugar aqui e agora é o centro do mundo.
Já nem vos odeio, sou indiferente, uma sombra.
Vocês são pedras que já nem me servem para chupar.
Durmo e espero.
Mato o tempo à espera que ele me mate,
Sentado, deitado ou de pé, já tanto faz...

Olga Roriz
Agosto 1998



Registo de um olhar

Num gesto involuntário, colo-me à parede. Uma intrusa, sem direito de ali estar, como se a rua deixasse de ser um espaço público.
Ninguém, no entanto, deu por mim. Ele, muito menos.
A escassos dois metros, a tranquilidade tem longas barbas e cabelos grisalhos, que há muito se esqueceram do doce perfume de um champô. As mãos, que se adivinham ásperas e cinzentas, abrem-se cuidadosamente a um espesso livro encadernado a preto, invejável a qualquer biblioteca. Cada página é minuciosamente lida com a calma de quem já esqueceu o tempo. Ao lado, uma garrafa de vinho, meio cheia ou meio vazia, alimenta o corpo, já que a leitura se encarrega da alma.
De repente, lembro-me do propósito que me levara a sair de casa, descolo-me da parede e avanço em direcção à esquina.
Não mais que um prédio separa um do outro. Nada tem de franzino, pelo contrário, é pesado, largo, espaçoso. Pequenos lápis de cor desenham sobre papel de embrulho. Fá-lo maquinalmente, sem hesitação, como uma criança. Desconcertastes são os seus incompreensíveis diálogos dirigidos ao spot publicitário da loja de lingerie da porta ao lado. Um pássaro e um criança são os interlocutores imaginários. Sem razão aparente volta ao seu desenho, absorta, inexpressiva. Olha-me de relance. Assusto-me. Sinto-lhe a indiferença esparramada por todo o corpo, contida em todos os sacos que a cercavam.
Arranco dali, continuo o meu caminho. Dobro a esquina, passo a farmácia, paro à porta do cinema.
Ele tem a aparência de quem já foi alguém, no porte, no modo de vestir, na réstia de dignidade, numa certa arrogância. Anda obcecado de um lado para o outro ou permanece imóvel durante longos períodos. Só se dirige a quem com ele cruza o seu olhar. O que diz nunca o virei a saber. A falta de coragem faz de mim só mais um que passa, inexistente.
Ando mais alguns passos, insiro o meu “golden card” na ranhura certa e, milagre, volto para trás com 40.000$00 na carteira. Passo o cinema, depois a farmácia, dobro de novo a esquina e o tempo parece não ter passado.
O pássaro e a criança continuam “empoleirados” no spot luminoso.
Não paro, mas não registo a olhar para trás. Sigo. Passo mais um prédio.
A garrafa já menos cheia ou mais vazia é a marca do tempo, a clepsidra.
Abrando com o pretexto de procurar as chaves na mala. A anterior imagem da tranquilidade é, agora, dilacerante. Com as unhas arranca da testa crostas secas de feridas incuráveis. O sangue que lhe escorre pela cara é displicentemente limpo, como se fosse suor.
Desvio o olhar e, já com as chaves na mão, avanço rapidamente, de olhos pregados ao chão, até casa.
Fecho a porta, enterro-me no sofá e deixo-me estar, “zapping” obsessivamente sem rumo, sem objectivo.
De súbito, escureço o écran. Atinge-me uma ideia apaziguadora.
Há duas possibilidades!
Serão eles os anjos de wenders ou imagens da morte?
O que é o mesmo!?

Olga Roriz
(texto escrito para o programa do espectáculo “Propriedade Pública em Agosto de 1998)
 
 


   

Sugados Imoralmente pelo Desejo e o Amor
 

Sabor
Insalubre Deglutindo a Alma / Sacrifício Imensurável que Destrói e Afunda
Suborno Indecoroso Déspota e Acintoso / Satânica Imperfeição que Desperta a Agressividade
Primeiro, foi o meu amigo Variações, deixou-me canções e mais canções. Deixou, sobretudo uma voz. Um cantar de galo. Um grito.
Sedento Ídolo Decrépito e Acutilante / Servo Impróprio Débil e Aberrante
Soldado que Impunemente Desforma o Adversário / Sítio Infernal Dedutivo e Absorvente
Depois, foi um amor, um parente americano. Todo gesto, todo espaço em cada passo. Falco, ensinou-me a respirar, a dançar. Herdei dele a paixão de olhar, de captar o momento, de fotografar.
Sobressalto Impiedoso que se Debate Abruptamente / Sádica Ilusão em Defesa Alheia
Sedutor Ímpio Decadente e Abjecto / Subtil Infortúnio que Decide e Abrevia
A seguir e imperdoavelmente, desapareceu um mestre do dizer, do fazer dizer. D. Juan nunca foi D. Juan antes do Mário o ter materializado. Pela sua mão, descobri Pasolini, que me fez descobrir Pasolini.
Solidão Inóspita em Direcção ao Abismo / Situação Inclemente Declarada ao Acaso
Síndroma Imoral Deliterioso e Abominável / Sinal Incómodo sem Decoro nem Abnegação
Pouco mais tarde, partia o Carlos e com ele a disciplina, a força, a vitalidade. Ficaram frases inesquecíveis, encorajamentos incomparáveis, cumplicidades silenciosas.
Sórdido e Inconsolável Declínio Absoluto / Solecismo Imprevisto Degradante e Astuto
Secreta Infâmia que Despoleta a Agonia / Soberano e Iminente Dado Adquirido
E depois outro e mais aquele e mais o outro. E tantas memórias quantos espaços vazios. Foram-se não por acaso nem por acidente ou envelhecimento. Foram-se por amor, roídos, corroídos de tanto amarem.
Sistema Imperfeito Desprezível e Agreste / Sanguinária e Incurável Doença que Absume
Sibilina Identidade Devastadora do Alento / Sombra Imóvel que se Desvanece e Afasta
« Amemo-nos » ? « Uns aos outros » ? Coragem malta !
Coragem, pois nem Abril nos trará a amnistia.

Saga Imperdoável Degeneradora e Absurda / Sinistro Inimigo Detentor da Angustia
Suplício Indevido que Despedaça a Auto-estima / Subtil Infortúnio que Decide e Abrevia
Silencioso Implacável Devorador da Alegria / Sofrimento Inumano onde o Desespero se Afoga

Olga Roriz
Março 1999
(Texto escrito para o livro de fotografia “Encontros Paralelos”)
 
 


   

Os Olhos de Gulay Cabbar
 


Lembras-te como dantes nos fartávamos de falar e de rir? Falávamos os dois horas esquecidas. Lembras-te?
Ontem, sonhei que sonhei que estava a sonhar...
Porque é tudo tão negro aqui? Já reparaste que nunca há preto num arco-íris? Só cores alegres.
Não chores, não serve de nada.
As mãos, já viste as mãos, têm todos os sentidos. Sem elas não podíamos escrever, nem brincar, não podíamos agarrar nem largar nada.
Deixa-te estar quieto dois minutos, eu volto já, eu volto já, eu volto já,...

Se eu, ao menos pudesse.
Se eu, ao menos por um minuto, pudesse deixar de pensar...
E calar-me.
Quem sou eu? Porque faço isto? De que estamos à espera?
Se eu, ao menos pudesse calar-me, como se fosse o próprio silêncio.
Como se o silêncio soubesse mais do que eu. Não!
Preferia morrer de tédio.
Preferia que a indiferença me envenenasse não só a língua, mas também o sangue. Esse sangue que às vezes me pesa de tão espesso e insiste em correr, sempre às voltas, às voltas, como um prisioneiro na cela.
O pai bateu-me a mim primeiro, atirando-me ao chão. Não doeu muito mas desatei a chorar à mesma, para ver se me deixava em paz. A mãe estava parada a olhar para mim. E depois pôs-me em pé e disse: “Tu não estás magoada!”. Como se eu fosse... nojenta por fingir, ao fazer a única coisa que poderia fazê-lo parar de me bater. Lembras- te?
Estás a fingir. Porque finges que não entendes nada do que te dizem?
Sei que não me consigo livrar. Sinto-me perdida.
Sinto-me perdida na tristeza.
Eu sou o silêncio que vos pesa, a voz que temem.No entanto, calo-me. Às vezes, calo-me. Eu sou o silêncio que vos pesa, no entanto calo-me, às vezes.
Amo-te... Amo-te desde que te vi pela primeira vez. Não pude evitar.
O amor, nasce assim. Às vezes, só num olhar. Não se pode resistir à felicidade.
Creio que te amei desde o dia em que te vi na estação. Um passarinho. Um passarinho todo amarrotado...
Sabes... Eu nunca me quis ir embora. Sei que dissemos que estava tudo acabado, mas...
Continuaste sempre entalado no meu peito. Sempre, sempre, sempre, sempre,...
É verdade, trouxe-te um... É um presente para ti.
Às vezes calo-me para vos dar espaço.
Sento-me, enrolo as pernas, cruzo os braços e vejo-vos passar, vaidosos a mirarem-se em cada vitrina.
Às vezes calo-me para vos dar espaço.
Todas as noites, todas as manhãs esperam-nos doces prazeres ou a noite eterna.
Se Deus criou o Mundo fez, antes de mais, a viagem. Depois, veio a dúvida e a nostalgia.
Olha pela janela. Não te faz recordar uma viagem de barco? Quando já tarde, de noite, deitado a olhar para o tecto, a água dentro da nossa cabeça confunde-se com a da paisagem.
Olha pela janela.
Pobres coitados, olham-se e não sabem que, na realidade, não passam de uma imagem reflectida, um engodo.
Até os manequins servem para alguma coisa. São perfeitos, e não são cretinos. São o que são e não pretendem enganar ninguém.
Vocês, uns medíocres....e não dão por nada.
Isso dói-me. Tudo me dói e há tanto tempo.
Os meus passos trouxeram-me até aqui. No entanto esqueci o porquê da razão. Esqueci.
Porque será que só nos encontramos no momento em que vemos os outros perderem-se? Porque será?
Agora já é tarde!...
Quero silêncio! A distância... As saudades... Já esqueceste?
Tudo me dói e há tanto tempo. Um monte de dores. Uma lixeira.
Aqui avança-se às cegas. Se der um passo. Se der um passo apenas, estarei noutro sítio.
Continental Air Lines – Flight 65 – Seat 27D – No smoking. 10 hours till the other side of the world.
Tears burn through out my cheeks, poring, down to my chin. Flying, flying over a cuckoo’s nest. I keep all those voices and faces inside my head... haunting me... screaming at me... rattling without a sound...
The loneliness grows in each kilometre that I left behind. Although freedom, waits me right ahead. Stop now! Stop now! Food is coming, and how I love plastic food! To Be continued in the next flight.
To Be continued in the next flight.
Nem um vislumbre de idealismo. Partilhar já não serve de nada. Vocês são-me completamente indiferentes.
Um dia dei comigo a pensar, que talvez pudessemos atingir a felicidade se conseguissemos viver como as cotovias, que só precisam de água para voar.
Maldita natureza! Sentes-te sozinha? Também eu.
É preciso mudar.
Mas vocês são um grupinho de amigos, não passam disso. Uns cobardes.
Eu sou o mau, para que vocês sejam os bons.
O agressivo, o mau caracter, um louco.
Lembras-te da estação de comboios? Tremias de frio à chuva, tal como tremes agora. O vento soprava forte. Eu estava de partida, mas tencionava voltar depressa. Depois perdi-me...
Se estender a minha mão eu toco-te e o tempo voltará a unificar-se. Mas algo me impede. Desejava poder dizer-te - “Estou aqui. Regressei.”- mas algo me detém e fujo, deixo-te fugir. A viagem ainda não terminou. Procuro, procuro ainda a inocência do meu primeiro olhar. Como uma obsessão.
Quero silêncio! Queria silêncio! Um silêncio tranquilo. Oferecido.
Queria não ter memória. Ser só o aqui e o agora a cada momento e deixá-lo passar sem saber.
Contaram-me sempre coisas que eu já sabia.
Desde criança que as sei, sempre as soube.
E depois?...... Que se faz de quem sabe demais?
E depois?...... Que se faz de quem não quer fazer nada com o que sabe?
Viver, já é uma tarefa suficientemente difícil.
Não contava ver-te tão de repente. Por instantes julguei que sonhava.
Estamos a morrer, não estamos? Mas se temos de morrer, que seja depressa!
Quando o sol mergulha no mar, como que abandonando a cena, eu sinto-me a afundar. Como agora.
Canso-me diariamente até que o sono venha. Acordo sempre exausto, mas nunca o suficiente.
Não há descanso.
Come-on, open your arms and fall back. Slowly, like the heroine of Alien 3. Or then abandon yourself to madness and walk in circles. Circle yourself in a selfish encounter.
Come-on, open your arms!
Tenho de ter calma.
Parar é completamente indispensável.
Es estou calmo. Eu hoje estou calmo, mas já chega.
Eu até podia...
A mim, nunca me contaram nada. Por isso, eu calei-me. Calei-me durante muito tempo. Calei-me até sentir essa pancada na nuca que me fez vomitar.
A fraqueza é a única frescura que nos resta. É preciso mantermo-nos indefesos, como as crianças.
Quant j’était petite !… Quant j’était petite !…
Quant j’était petite il y avait une chose la quelle j’aimait, la solitude. Bien sure que je ne connaissait pas la parole. Bien sure que je ne savait rien sur ça. Mais, déjà la s’était un moment si plein, si tranquille.
Le moment à moi, pour mon plaisir, ma folie.
Si au moins je pourrait imaginer le danger.
Si au moins j’avait senti la peur.
Si au moins ce temps la pourrait vivre encore en mois.
Pourquoi le plaisir de la solitude s’en vas avec la solitude ?
Quant j’était petite !… Quant j’était petite !…
Não há interlocutor. Nunca houve.
Por isso calo-me.
Ultrapassou-se o tempo. O tempo normal. O tempo possível, passível. O tempo previsto, suspenso.
Suspendeu-se o tempo por um fio.
Alguém à espera de alguém. Cada um à espera de si mesmo.
Eu também, espero por mim. Mas, nunca chego.
Sonho. Sonho sempre. Sonho muito. Grito e choro e gemo.
Não sei o que sonho. Fica-me o cansaço, como uma traição. Uma segunda vida obscura e falsa. Uma espécie de réplica do original.
Nos meus sonhos habito uma sala de espelhos, onde fujo e me persigo.
Sonho. Sonho sempre. Sonho muito e grito e choro e gemo.
Não suporto que me toquem. É simples, é elementar.
Já estou farto de esperar. Vamos fazer qualquer coisa. Não se faz nada aqui.
Se tenho medo? Claro que tenho medo!
É um sítio tão racional quanto inexplicável, tão real quanto aparente. Um pântano insuportável... Indomável...
When the fear came, it turned my days into a thick air.
It brought a cold feeling to the dark hours of my nights.
It showed me what I didn't wont to see.
It made a link between reality and my imagination.
The fear thrown me into my strength.
It made me think about the unthinkable, twisting all the principles, braking the chaos into many orders.
It made my rules look like toys.
The fear opened space, but also closed many doors. When the fear came
Lentamente, cresceste dentro de mim. Como magia eu deixava de ver os meus pés.
Despegaste-te cedo de mais ou demasiado tarde. É verdade que já não aguentava o peso, o mau estar. É verdade que por vezes me achava disforme, quase grotesca e te culpava por isso.
Fui tua até quando pude. Depois cansei-me de mim e deixei-te.
Deixei-te ir, pensando que voltavas. Voltarias ao mínimo sinal. Mas, não! Perdi-te. Perdi irrecuperavelmente um pedaço de mim. Como se me tivessem arrancado a pele.
Resta-me esconder as lágrimas sob o duche, olhar os brinquedos pousados no mesmo lugar, ouvir ao telefone a tua voz, ainda tão de criança.
Como descrever a dor?... Um espartilho. Um espartilho de arame farpado, onde cada inspiração dilacera o corpo. Este corpo que chora, ensanguentado.
Estou cansado. Estou farto de andar a pé e não gosto de pedir nada a ninguém. Aos amigos já me ensinei. Aos amigos já me ensinei. Aos amigos já me cansei de ensinar o que sei. E a mim? A mim quem me vai ensinar o que não sei???
Nesta noite calma, nascerei outra vez!?
Nem um grito, nem a mínima raiva.
Não há vento nem chuva. Tudo é calma. Tudo plenamente calmo e em paz. Tudo!
Diante de mim vejo o que de mim deixei de ser.
E assim me abandono, em queda oblíqua, numa descida vertical.
E assim me abandono, em queda oblíqua, numa descida vertical de trajetória circular e infinita, infinita, infinita, infinita, infinita...

Olga Roriz
Fevereiro 2000
(Texto dito em voz off por Olga Roriz)

 
 


   

Código md8
 

Monólogos

Ca.- Perco-me nas pontas de um lençol vazio.
Ad- Não! Não! Sou obcecada pela sensibilidade.
Ca- Perco-me no vazio de um quadrado perfeito.
Ad.- Não! Sou obcecada pela inteligência.
Ca.- Perco-me na perfeição, como se fosse um erro.
Ad.- Gosto de problemas. Gosto de jogos.
Ca.- De tanto te ver, imagino-te.
Ad.- Problemas insolúveis. Jogos de sedução. É perder ou ganhar.
Ca.- Enrolado num cobertor pequeno demais. Desmaiado num sofá demasiado curto.
Ad.- Não aceito os outros, mas não consigo viver sem eles. Sem ele.
Ca.- Calado. Inerte. Quase inexistente.
Ad.- Um outro qualquer...
Ca.- Desfeito. Perfeito.
Ad.- O que se deita comigo na cama.
Ca.- Ausente.
Ad.- O que se lança na minha direcção mas raramente me atinge.
Ca.- Desmente-me. Vá, desmente-me agora. Diz-me agora que o que vejo não é a verdade de ti.
Ad.- Não sei porque relaciono os amantes com linhas paralelas. Não sei porque me preocupa saber quem passa por cima ou por baixo.
Ca.- Vá rapaz. Homem. Cachorro. Levanta a tua voz e diz-me que é mentira. Diz-me agora, se podes, que esse teu corpo requebrado de Madona, mesmo adormecido, não é desejado. Que essa tua boca silenciada não tem um ouvido atento e apaixonado.
Ad.- Não sei porque confundo a geometria com a paixão. Uma relação amorosa com uma viajem de comboio. Uma discussão com uma cancela fechada.
Ca.- Vá lá. Diz-me agora que não sentes o meu amor. O amor... O amor... O amor...
Ad.- Resumo tudo a um frenesi de partidas e chegadas. Uma espécie de máquina imparável e inútil.
Ca.- O amor... O amor é escrever-te enquanto dormes. É pensar-te quando estou longe. É querer-te quando não estás. É tentar, uma e outra vez, saber viver ao teu lado.
Ad.- Parece-me que a vida não passa de uma fábrica de consolações.
Ca.- Não percebes que amar-te é um desafio. Não, disso tu não sabes nada.
Ad.- Vivemos enlatados, comemos enlatados, trabalhamos enlatados, viajamos enlatados, envelhecemos e morremos enlatados.
Ca.- Tu, que pensas saber tudo, não fazes a mínima ideia do que é amar-te.
Ad.- A tranquilidade?... A felicidade?...
Ca.- Não, para ti isso não passa de uma impossibilidade, de uma improbabilidade. Algo que não faz parte do teu projecto. Algo perdido ou esquecido na adolescência.
Ad.- A tranquilidade é um microondas e um charro para adormecer.
Ca.- Lamento mas...
Ad.- A felicidade é 1, não 5 Baccardis Cola. Nos intervalos, apaziguo o tédio em frente ao espelho à espera que algo faça sentido.
“La vie, cette chose qui vient avant la mort. Qui vient avant la mort ».
Ca.- Lamento mas, por mais que tentes ignorar, não o podes destruir.
Ad.- “La vie, cette chose qui vient avant la mort”.
Ca.- « C’est la vie, cette chose la qui vient avant la mort ».

Olga Roriz
23 Novembro 2000
(Para Adriana Queiroz e Catarina Câmara)


O cansaço às voltas

O cansaço às voltas...
Já me esqueci da medida do meu desespero. Há anos atrás. A minha ilusão era tão grande quando eu era pequenina.
O cansaço às voltas. À volta dos olhos, da boca, dos dedos. Não vêm? Não! Vocês não vêm nada!
Mas eu acordo de cinco em cinco minutos para ver se estou a dormir.
Que voltas se lhe pode dar a esta coisa chamada, espera?
Como vocês me aborrecem. Como eu me aborreço.
Vejo o cansaço como se não fizesse parte de mim.
Espero a cada manhã que o espelho se alise e eu volte a ser menina.
E se eu quisesse e se eu ainda pudesse. E se eu pudesse e se eu ainda quisesse. E se eu ainda vos amasse.
A diferença de cada dia não passa de uma banalidade destorcida.
E esta música não passa de uma hipocrisia.
Estranho tudo, porque espero tudo!
Luto por tudo, porque tudo me pesa!
Tu, que olhas e não me vês, pesas-me.
Tu, que falas comigo mas não ouves, pesas-me.
Trago-me de rastos. Escoou-me por entre as frestas. Perco-me entre os dedos das mãos.
Não consigo ver o fim do meu princípio.
Não me consigo ver.
Sim, sou apenas cansaço.
E se eu quisesse e se eu ainda pudesse. E se eu ainda vos amasse.
Sou tão pequena e breve e louca. Uma voz que mal se ouve ao anoitecer.
Tenho saudades, mas não sei de quem.
Se tardas, será tarde. Demasiado tarde.
Quando vieres, não batas à porta.
Entra. Entra, como se a eternidade viesse do passado.
E se eu quisesse e se eu ainda pudesse. E se eu ainda vos amasse...
E se eu quisesse e se eu ainda pudesse. E se eu ainda vos amasse...

Olga Roriz
4 Dezembro 2000
(Texto para Adriana Queiroz)
 
 


   

Gosto Não Gosto
 

Gosto de gostar, de degustar. Não gosto de não gostar. Gosto de sentir que ainda posso vir a gostar. Gosto de viajar sentada no canto do sofá. Gosto de saber. Gosto de descobrir que não sabia que sabia. Gosto das cidades desconhecidas, dos jantares solitários e dos quartos de Hotel. Não gosto das alturas nem de espaços fechados. Não gosto de ter medo. Gosto de fazer rir. Gosto de oferecer presentes, passados e futuros. Gosto de ser surpreendida. Gosto da minha necessidade de criar, de imaginar. Não gosto de chuva, de vento, de trovoada. Não gosto de mim perdida. Gosto da elegância dos pequenos gestos. Gosto de me calar. Não gosto de conversas de circunstância. Gosto de poder dizer o que penso. Gosto de fazer pensar. Gosto do escuro e gosto da luz. Não gosto de política nem de políticos. Não gosto da política cultural deste país. Não gosto que tratem mal os artistas. Gosto do absurdo. Gosto de fazer 3 coisas ao mesmo tempo. Não gosto de não ter nada para fazer. Gosto de perfumes, da casa cheia de velas e de incensos. Gosto de ter fome, sede e frio. Gosto de me enroscar e que o seu corpo me aqueça noite dentro. Não gosto do meu corpo. Gosto do que faço com o meu corpo. Gosto dos Teatros vazios. Não gosto das horas que precedem os espectáculos. Não gosto da violência, da opressão, do abuso do poder. Não gosto da mediocridade. Não gosto de injustiças. Não gosto de dependências. Não gosto de hábitos. Gosto de me cansar. Gosto de sentir o poder muscular do meu corpo. Gosto de não parecer que tenho 47 anos. Gosto de exageros. Não gosto de verdades absolutas. Não gosto de pessoas cheias de certezas. Não gosto de incompetências. Não gosto de falsidades. Gosto de me sentir segura das minhas inseguranças. Gosto da sensação de pânico no 1º dia de ensaios. Não gosto de ter de vender o que faço. Não gosto da sensação de não ter tempo de fazer tudo o que queria. Gosto de recordar. Gosto de rever fotografias antigas. Gosto de antiguidades. Gosto de coleccionar relógios de parede, parados claro. Não gosto de usar relógio. Não gosto de velocidades, nem desportos radicais. Gosto da necessidade que tenho de escrever. Gosto tanto de computadores quanto de um bom lápis e cadernos pautados. Gosto do cheiro dos livros. Gosto de uma piscina olímpica, seguida de um banho turco, um tanque de água gelada, montes de cremes e por fim um sumo de laranja. Não gosto da inércia. Gosto da preguiça. Gosto deste jogo interminável. Não gosto de ter de terminar. Gostar ou não gostar eis a questão!

Olga Roriz
8 de Agosto de 2002
(Texto pedido pela revista DNA, inserido na rubrica “GOSTO.NÃO GOSTO”.)
 
 


   

Do Corpo ao Corpo
 

Dançar.
Pôr o corpo a pensar.
Deixar que o corpo pense.
Pensar porque se pôe o corpo a dançar.
Acreditar, que ao pensar se sente.
Sentir o sentido das coisas.
Fazer-se sentido.
Desfazer-se do sentido e sentir-se.
Emocionar-se.
Deixar que o corpo se emocione e nos embarace.
Perder a timidez.
Perder as defesas.
Agarrar as memórias.
Brincar-se.
Saber que só o corpo tem o vocabulário do sentir.
Voltar a pensar.
Pensar porque se pôe o corpo a dançar.
Perder o sentido das coisas. Perder as coisas.
Apenas esse corpo nos faz deixar de pensar.
O fascínio do corpo que nos comanda.
Perder a timidez.
Invejar o corpo.
Como consegue ele saber mais do que eu?
Dança…
Pensa…
Sente…
Emociona-se…
Deixa-se ir.
E ri-se. Ri-se na minha cara.
Diverte-se.
Diverte-se a enganar-me. Ama esconder-se.
Disfarça fugas para poder atacar pelas costas.
Agarra-se até me asfixiar, depois afasta-se e deixa-se ficar.
Deixa-se ficar. Ali, à minha frente, com ar irónico, sádico.
Observa-me. Calmamente,…até eu desesperar.
Desespero.
Já deixei de pensar, de sentir.
Espero… Espero…
Pouco depois volta. Vem, de mancinho, tocar-me na pele.
Beija-me na nuca até eu fechar os olhos de prazer. Até eu perder a noção que existo,…que algo existe para além daquele corpo em movimento.
O corpo não mente porque me faz perder a razão.
Do corpo me prendo e me desprendo.
Ao corpo me faço e me desfaço.
Do corpo ao corpo me reduso.
A ele me rendo de livre vontade.
No campo de batalha ao seu lado morrerei.

Olga Roriz
16 de Março de 2004
(Para a Revista do Teatro Rivoli)
 
 


   

O Estado da Dança do Estado
 

Pediram-me que escrevesse sobre o estado das coisas aí pelo norte. Claro está, das coisa da dança. Dança essa, que reclama o direito de também ser teatro, de também ser música, canto, cinema... Em primeiro lugar, ocorreu-me, que eu era a coisa em si e que do meu estado nada sei, a não ser que estou ainda dentro do prazo de validade e portanto, um produto consumível sem perigo de danificar o organismo.
Desse norte, tão vazio de nós, “tão longe”, só posso desejar um futuro diferente. De lutar por mudanças, já desisti. Coitados de nós, povo inculto e sem voz nem poder.

Enquanto penso no assunto, alinhavo outra reflexão. Será que o estado geral se pode medir pelo meu estado actual? Então, a coisa vai mal! Estamos perdidos! Viajamos sem pontos de referência. Trataram, rapidamente, de nos ludibriar. Resultado: cada um de nós deixou de saber quem é, o que faz, e qual o seu lugar no meio dos fazedores. E, atenção, no meio é que está a virtude! E nessa virtude, cada um tem de saber para que lado está virado, não se vá dar o caso de estar de costas para o público.
De costas viradas para nós, à volta de mesas redondas mas sem Rei Artur, parece estar essa gente (o poder central) que trata da cultura. “Claro que as salas de espera das urgências estão cheias e as ambulâncias não param de chegar. Todos nós, para ali estamos com recém nascidos ao colo de goelas abertas, uns com asma, outros com escarlatina, ou com papeira, ou zona... E ali ficamos à espera, impotentes, a contemplar a beleza colada ao peito na esperança, cada vez mais longínqua, de não se ser esquecido. “Talvez tivesse sido melhor chamar o médico de família”, pensam alguns secretamente. Mas esse também está sempre tão ocupado! Pelo menos aqui estamos acompanhados, sempre podemos desabafar com o vizinho. O pior de tudo são as crianças a chorar. É um barulho ensurdecedor, e não há nada que as cale. Nada nem, pelos vistos, ninguém.”
Não deve ser nada estimulante para aqueles que, mesmo com algum poder de decisão, nada conseguem fazer. A descentralização está na moda, mas que se pode fazer sem condições, sem financiamento, sem apoios? Pobres das autarquias que têm sonhos, dos vereadores da cultura por esse país, de certo frustados, que tanto planearam poder presentear as suas populações.

Como não há duas sem três, subitamente, surge-me mais um comentário, tão válido ou absurdo quanto os dois anteriores.
Neste País, que nos pôs a dormir há já demasiado tempo, nada disto não passa de um mal menor. Nada disto tem a mínima importância. O importante é ir alongando o curriculum, é dar umas escapadelas ao estrangeiro e mesmo assim apresentar as continhas certas no final do ano, é ter um lindo desdobrável cheio de iniciativas (falhadas ou não) para distribuir à imprensa. Verdade seja dita, o povo precisa é de alimentar o estômago, o espírito pode ficar para mais tarde.
E nós, bobos da corte, ficamos à espera que o rei faça anos.
Entretanto, brincamos às escondidas entre papeis rascunhados. E cedo, demasiado cedo, o corpo começa a doer de tanta quietude.
A esperança não é produtiva. Esperar não nos leva a lado nenhum.
Resta-nos continuar a galgar o caminho que queremos percorrer e construir os castelos por criar.
Talvez um dia se dê um milagre e a dança suba ao norte e, porque não, consiga até descer lá mais para sul.
No centro, que tudo parece acontecer, não se enganem meus amigos promotores da cultura que a pasmaceira é a mesma! Os concertos de rock e o football chega perfeitamente para animar a malta.

Deixo aqui um apelo a quem de poder. Por favor não desistam dos vossos ideais. Nós, criadores, continuamos a produzir e à espera de ser-mos programados por esse país fora.
Por experiência permitam-me afirmar que o nosso desejo é igual à avidez que o público tem de ver espectáculos com qualidade e a dança contemporânea portuguesa não deve nada à que se faz por esse mundo fora.

Olga Roriz
19 Março 2004
(Artigo para A Revista Cultural do Norte)
 
 


   

O Corpo que fala do corpo que fala
 

P A L A V R A S
Pequenos sons, extensões de um interior secreto
Aventuras perigosas em salas silenciosas, escuras, frias
Leveza de uma boca quase cheia de nada
Avidez mórbida de ferir, de fazer rir, pensar, chorar
Vício, vontade, necessidade da nudez interior, dizer-se nu
Rasgar o espaço numa viagem imóvel
Aprender, apreender, andar em volta de si mesmo. Agarrar-se
Suspender-se num fio de nylon sem rede e deixar-se cair

T E X T O
Tudo indica ser o modo mais eficaz de nos entendermos
Exemplar forma de dizer o que se pensa, como se pensa
Xeque mate no local certo à hora precisa, sem Bip, sem T. Móvel
Transformar, contornar,... eliminar, acrescentar, sobretudo brincar
Olhar disperso com um ouvido atento. Não há descanso, nunca

C R I A Ç Ã O
Conseguir o que se quer para saber o que se procura
Respeitar a primeira ideia e questioná-la sempre
Instalar o caos e nunca tentar ordená-lo, nunca
Aceitar que os outros existem, sendo nós sempre o centro do Mundo
Ç, ora ai está um c cedilhado. É urgente criar uma palavra!
Amontoado de tudo o que até “agora” se guardou, negou, ou escapou
Ocupar lugar, ignorar a razão e omitir, omitir sempre a verdade

M E N T E
Minúsculos pontos invisíveis, insuportáveis, incontroláveis
Ebulição de inocentes verdades, de puras mentiras
Navegar sem destino sobre asfalto quente, peganhento
Traição, mutação constante, tolerância
Encontro com o vazio, o questionável, a solidão

C O R P O
Canto, desencanto. A cova do lençol, o cheiro
Oposto, desconhecido, o outro lado do espelho: O P R O C
Revestimento, invólucro, extensões. Limite
Porto de abrigo, prisão perpétua, liberdade condicional
Onde mora a dor, o desejo, a morte

P E R S O N A G E M
Preguiça, vício, resistência incansável, deformação
Encontro de uma qualquer normalidade, da utopia
Reconstruir, reinverter, repetir... repetir... sem nunca se repetir
Saber-se que é irrelevante não se saber o porquê!
Olhar objectivo de uma visão imaginária do Mundo
Nenhum outro momento é tão verdadeiramente falso
Alice nunca esteve no País das Maravilhas!
Grunhir, miar, uivar e sentir-se ridiculamente credível
Esquecer-se o que se é sem nunca se perder de vista
Motivo de mudança e todo o tempo para perder. Todo.

V O Z
Virar-se do avesso, esvair-se em som e esperar uma resposta qualquer
Ocupar espaço, usufruir do tempo, poder rir e dizer o contrário
Zombar, ziguezaguear, zangar-se, armar uma zaragata e zarpar

M O V I M E N T O
Modo permanente, perpétuo de um ser até não se ser mais
Onde eu sou diferente de ti e tu diferente do outro e do outro...
Velocidade, lentidão, paragem, ritmo cardíaco
Imagem destorcida, contorcida, sensual, bela ou grotesca
Mentir é impossível quando, uma mão, um olhar se levanta
Envenenar o gesto do que nos rói a alma, nos fere a vista, o estômago
Nudez pura, por mais vestida ou encoberta nunca deixará de ser nudez
Trapezista sem rede, sem público, sem aplausos
Ofício: nunca deixar de ser criança ou ser velho sem ser adulto


O C O R P O Q U E F A L A D O C O R P O Q U E F A L A D O

Processo ou método desenvolvido por cada criador é tão complexo de transmitir quanto o é de percepcionar pelo próprio que o cria .
Todos os campos estão abertos, todos os caminhos são possíveis de percorrer .
É, no entanto, verdade que aos poucos se vislumbram as opções, as preferências, se adivinham as obsessões, se descobrem os fantasmas, se reconhecem os gostos, os ritmos, os temas.
Assim, falarei de mim, fora de mim. Falarei do que faço, não do que sou. Falarei de mim e dos outros que comigo fizeram. Falarei ainda de outros, os anónimos observados.
Se analisar cada “passo” que dei em cada espectáculo que fiz, talvez chegue a alguns pontos comuns. Uma espécie de consenso ao qual talvez possa chamar, o meu processo de trabalho. No entanto, que fique desde já esclarecido que esse processo está longe de ser unívoco, quero dizer, cada parte ou fragmento do todo, dito produto final, é alvo de um tratamento individual e específico.
Concentremo-nos então no tema proposto analisando-o, tanto quanto possível, de um modo claro e objectivo.
  • O Texto como Ponto de Partida

Na realidade, ao longo de todo o meu percurso, só me confrontei uma única vez (na encenação de “Crimes Exemplares” de Max Aub) com um texto pré-existente como pretexto para a construção de um espectáculo. No entanto o que me seduziu neste texto foi a sua forma aberta, não teatral mas sim fragmentada. A possibilidade de ser refeito, reinventado. As inúmeras hipóteses interpretativas. A liberdade na opção estética, no número de personagens/intérpretes intervenientes. E sobretudo pela sua intemporalidade e universalidade. Ao dizer isto, penso que se adivinha o processo de adaptação do texto ao longo dos ensaios, conforme ia conhecendo melhor os actores e as respectivas identificações ou não, com o perfil dos personagens, que desde o início esbocei.
Um texto como ponto de partida, poderá parecer menos libertador, mais castrador, mais arriscado. Mas por outro lado, é um princípio mais tranquilo, mais seguro e objectivo.
Exemplo desta situação foi o caso do espectáculo “Start and Stop Again” à cerca do Tempo, tema que pela sua complexidade, exigia, quanto a mim, um trabalho literário cuidado e funcional, razão pela qual recorri a dois escritores que desde o início acompanharam o projecto e, para ele, criaram textos originais.

  • O Texto como uma Necessidade
“O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si próprio.”
“O caracter fundamental tautológico do espectáculo decorre do simples facto de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade.”
Cito Guy Debord em “ A sociedade do espectáculo”, porque a sua leitura fez-me questionar a importância e a necessidade do espectáculo na sociedade, versus a sua natureza supérflua e desnecessária.
Partindo eu do princípio que há uma necessidade para além da do espectáculo, na pessoa do espectador/consumidor, parece-me evidente e intrínseca à própria noção de arte a necessidade inerente ao criador e aos intérpretes.
Permitam-me ir um pouco mais longe, ouso chamar a esta necessidade interna a primordial, a válida, o objectivo e a finalidade, a única razão plausível da existência do espectáculo.
Dizer o que se quer para que fique dito para sempre ou não dizer o que se quer para que não fique dito para sempre.
É indiferente e nada é indiferente.
Do nada faz-se tudo, mas nunca nada tanto faz.
Qualquer palavra após um breve suspiro, ais e mais ais, um inesperado silêncio absoluto interrompido por um longo discurso amoroso culminando num rodopiar vertiginoso até ao desmaio, representado com toda a lógica ou mesmo de um modo aparentemente absurdo, só é válido se nascer de uma necessidade seja ela de que ordem for, mesmo que vinda do inconsciente, do instinto...
O texto nasce ao mesmo tempo que a necessidade dele!
  • O Texto como Ponto de Chegada
É o objectivo da necessidade de um texto.
O ponto de chegada faz-me sempre lembrar, tempo. O tempo.
O tempo que levou a lá chegar. O tempo que o espectáculo e o espectador partilhou, despendeu, percorreu, deixou passar...
O tempo pré-definido da duração prevista e o tempo indefinido, subjectivo, diferente de espectador para espectador, de actor para actor, de técnico para técnico, de arrumador para arrumador, de um dia para o outro, do estado do tempo, da dimensão da sala, da disposição individual, da vida...
Idealmente o espectáculo deveria ser: “ O tempo de alienação necessária, no qual o sujeito se realiza, perdendo-se, tornando-se outro, para se tornar a verdade de si mesmo.” Hegel Voltemos ao texto como ponto de chegada, não no sentido de um fim, mas sim de um início.
Penso ser esta a noção que persiste em me acompanhar na construção da maioria dos espectáculos.
O processo em si, passa por uma série de fases com durações variáveis consoante os projectos: 1- Expor aos intérpretes a ideia ou ideias base para o início do trabalho; 2- Discussão sobre o tema, levantar questões, esclarecer dúvidas em grupo ou individualmente, caso seja mais produtivo; 3- Dar informações sobre as fontes possíveis de pesquisa (autores, livros, textos, filmes, etc. ...); 4- Após um mês de trabalho, discutem-se os resultados dessa pesquisa colectiva, confrontando os vários pontos de vista e clarificando intenções e objectivos; 5- Antes de entrarmos no trabalho de estúdio, é o momento das opções onde se delineia uma primeira distribuição de “papeis” e se seleccionam textos que individual ou colectivamente vão ajudar, influenciando e motivando o desenvolvimento de cada percurso.
Note-se que, em alguns dos espectáculos, a maioria desses textos não eram ditos, mas funcionavam como uma base de apoio (uma espécie de inconsciente) para o perfil do personagem, acção ou situação. Noutros casos, o texto era o verdadeiro suporte e estímulo para o movimento, podendo também funcionar como reforço paralelo da acção, mesmo se utilizado como contraponto. Noutros ainda, o texto assume um lugar autónomo, despojado de movimento, só. A voz do corpo. O chamado, texto para ser ouvido, não visto. O texto que só pertence à voz.
  • A Construção do Texto
Depois da ideia, lançado o texto, constroi-se a partir de tudo e de nada, descobrem-se chaves ao virar da esquina, ao adormecer, aprendemos sabedorias secretas de ouvido atento e sobretudo de olhos bem abertos Ao escrever um texto, voltamos a ser crianças, brincamos com as palavras, sentimo-lhes o ritmo, lutamos por conseguir dizer o que pensamos, lemo-nos em voz alta, gostamos um pouco mas não o suficiente, corrigimos, voltamos a ler. Tudo isto é tão estimulante quanto conseguir resolver um puzzle complicado.
Claro que este meu prazer da escrita não passa de um privilégio pessoal e intransmissível, mas no entanto, esse gosto tem-me ajudado a tornar mais compreensíveis e claras as minha ideias.
Em relação à construção de textos para um espectáculo, na realidade não há uma regra, apesar de todos eles terem tido alguns processos comuns. Por exemplo, em todos eles existe uma ou várias cenas onde os textos se foram construindo ao longo das improvisações pelos próprios intérpretes.
É óbvio que neste processo as mutações são constantes: o que foi imprescindível num dia, parece-nos completamente desnecessário e supérfluo no outro e por vezes após algumas semanas tudo parece voltar ao início. Até chegar a uma forma definitiva, passam-se por tantas transformações do texto quantas as contorções dos músculos.
Peculiar, mas não menos estimulante, é a situação em que o texto se mantém aberto (não definitivo) mesmo nas representações, dando assim liberdade/limitação ao intérprete de contar a mesma “história” com as mesmas palavras mas de uma forma/construção todos os dias diferente, ex.: “Propriedade Privada”.
A complexidade aumenta quando a intenção é encontrar unicamente uma forma-intenção, física e vocal onde o personagem tem um tempo-espaço-acção completamente definido e delimitado, mas onde o texto só tem como indicação o tema, ex.: “Propriedade Pública” e “Código MD8”- tema: obsessões/intimidades. O intérprete aí lança-se no escuro, entra no túnel de si mesmo e deixa-se “enlouquecer”.
  • A Corporização da Palavra
Na dança, porque é de dança que se trata, o corpo impõem-se, está lá, ávido de ser. Em cada um desses corpos reside uma pessoa, uma mente, uma maneira de ser e de estar, um ser pensante, criativo, interveniente.
O corpo na dança sabe-se, sente-se, vê-se fora de si mesmo.
O corpo na dança é incansável.
Voltando ao corpo e à palavra, melhor dizendo, à palavra no corpo: a melhor maneira de conseguir exprimir o que procuro é inscrever a palavra no corpo e imprimir na voz o movimento, quero dizer, nenhum movimento se diz por acaso, nem nenhuma palavra se move sem qualquer razão, é verdade que o bailarino se obriga, imóvel, a trabalhar unicamente o texto, como também procura a perfeição do gesto em silêncio. No entanto, ele sabe que as duas partes são inseparáveis, que o confronto é inevitável, que cada uma delas se irá moldar à outra. E por vezes, uma espécie de magia acontece! A inteligência de se saber ser e, estar, diria eu; instinto, dizem alguns; outros, chamam-lhe talento, intuição, técnica,...

Olga Roriz
Março 2004
(Artigo para os Cadernos do Rivoli)
 
   


   

Confidencial
 

Se ao menos fizesse sentido dançar-te até que os sapatos fujam dos pés e se 1+1+1+1 pudesse fazer esquecer o vazio ao voltar a casa.
gostava de poder não saber, mas o crime é ser bela, etérea, efémera mas tão carnal. uma triste sílfide num baile de máscaras com pose de cavalo onde o amor não passa de uma protse, de um faqueiro incompleto, de um fundo falso, um olhar sádico, o mundo ao contrário, o sangue a explodir...
talvez reinventar a nudez arrume a casa e as pessoas da nossa vida.
contrariamente ao contrário ninguém lhe dá o seu próprio prazer.
agora a dor da paixão... da tesão... de um não... da solidão... está demasiado tensa, fechada no quarto das visitas, dentro do armário da cinderela como uma natureza morta.
e o amor é uma casa em construção que, mesmo na primavera, quando o vazio e o silêncio pesa, as flores voltam a nascer.
ai! se as couves, os grelos e outros vegetais soubessem que quanto mais me tento esconder mais visível me torno, mas é tão fascinante a mentira quanto a verdade que contém.
como se o país das maravilhas fosse uma natureza forçada. e a rotina diária uma espécie de horizontalidade em vertigem, uma queda em suspensão...

Olga Roriz
20 de Abril de 2004
 
 


   
     

Do Corpo Ao Corpo
 

Dançar!... Esse corpo que pensa e se sente. Deixar que se emocione e me embarace. Perder a timidez, as defesas. Vasculhar nas memórias. Invejar esse corpo que se agarra até me asfixiar. Vê-lo afastar-se, com ar irónico e sádico, para de novo voltar de mansinho a tocar-me na pele e beijar-me a nuca até perder a noção que existo.
Desse corpo me prendo e me desprendo. Ao corpo me faço e me desfaço. Do corpo ao corpo me reduzo. A ele me rendo de livre vontade. No campo de batalha ao seu lado morrerei.

Olga Roriz
Abril 2004
(Texto a publicado no Jornal “O Público” no dia Mundial da Dança)
 
 


   
     

Um minuto de silêncio
 

I
«Agora já é tarde. Quero silêncio. Queria silêncio. A distancia. As saudades. Já esqueceste?»

II
«O silêncio que deixaste instalado no canto do sofá, sufoca-me!»

III
«Esta pequena janela, por ti feita ternura, está agora inerte, silenciosa, embaciada,...»

IV
«Ai! Este silêncio onde agora me deito. Mortalha antecipada.»

V
«De dentes serrados passo as horas doridas de tanto silêncio.»

VI
«Quando o silêncio se instala de casa cheia, ou dormimos ou estamos mortos.»

VII
«Ao meu lado, ouço apenas o eco do meu próprio silêncio.»

VIII
«Esse maldito silêncio descansa aos meus pés como um cachorro velho.»

IX
«Silencio-me no turbilhão das minhas ideias»

X
«Hoje acordei sem silêncio no peito. Deixei queimar a pele no duche para me certificar que existia.»

XI
«Há o silêncio bom e o mau. O que vem após um suspiro de prazer ou um grito de raiva.»

XII
«E que tal uns tampões de cera nos ouvidos. É um barulho ensurdecedor!»

XIII
«Onde estás?... Não deixes que o silêncio se instale nos nós dos dedos, ao canto da boca, no fundo dos olhos, nos cabelos, no peito, no colo,...»

XIV
«O silêncio não existe. Ou melhor, existe antes e depois de nós!»

Olga Roriz
23 de Setembro de 2004
(Texto sobre o silêncio a ser publicado no livro “ Um minuto de silêncio” de Marisa Moura Storch)